Essa foto panorâmica acima poderia adornar qualquer capa de uma edição especial sobre as enchentes no Jornal de Santa Catarina, o mais influente e poderoso da região do Vale do Itajaí. Mas a imagem, na verdade, é do Denis, colaborador do blog que desde sábado passado cobre a enchente e as chuvas que, nas palavras do governador do estado, derreteram Blumenau. O Alles Blau influenciou uma dezena de outros e tem dado vários passos transformando a informação em serviço público, tentando não apenas noticiar, mas motivar as doações e a ajuda voluntária de quem o lê.

Quando o caos começou a ser uma questão de minutos, era de se esperar que as emissoras de TV não estivessem muito aí para o que se armava. Esperariam que milhares ficassem sem casa e dezenas sem vida, para assim valer a pena uma viagem de um apresentador, vestindo roupa camuflada, para a região atingida. Enquanto isso, muitos buscavam informações sobre o que acontecia nas cidades. Talvez na internet, nos sites dos veículos locais, encontraríamos as melhores e mais ágeis informações. Mas o que se viu, por parte deles, foi um silêncio arrepiante: páginas desatualizadas, notícias velhas e nada que pudesse auxiliar quem precisava de ajuda.

Mas onde estava então a notícia? Nos becos da rede, tudo muito mais real, muito mais ágil e muito mais reconfortante, através de relatos de moradores ou vizinhos dos lugares atingidos. Nada mais sensato que agrupar, reunir e organizar a informação que brotava do Orkut e do Twitter, bem como das rádios da região. Sem querer, o Alles Blau transformou-se num ponto de referência sobre notícias da localidade na internet, o número de visitantes mostra isso.

No domingo passado, antes de sair repentinamente do ar, uma das únicas rádios que ainda transmitia comentou através de um locutor assustado sobre uma suposta explosão na região norte da cidade. No Twitter e no Orkut as pessoas postavam alucinadas e apavoradas sobre um forte estrondo que ouviram e as labaredas gigantescas que conseguiam enxergar de vários pontos da cidade. Era um gasoduto que passava nos limites com a cidade vizinha. Enquanto a mídia ainda checava as suas fontes, coloquei no ar um post com um relato do Denis, feito pelo seu celular (com um teclado T9!), ilustrado com uma foto de um membro da comunidade Blumenau no Orkut. Furamos todos os veículos locais que estavam acordando para a transmissão da catástrofe nos seus sites.

Não fomos até a região, não entrevistamos alguém por perto, não questionamos o prefeito. Aliás, como acontece até hoje, muitos de nós continuam trabalhando enquanto alimentam o Alles, colaborando no blog de forma amadora, administrado pela Jululi. O fato exemplifica a motivação de construir a notícia, expondo ao público o que supostamente acontece dentro de uma redação, e convidando as pessoas a participarem com depoimentos no Twitter, Orkut e comentários nos posts. A confirmação dos fatos ia se dando conforme os textos eram publicados - aproximadamente 750 em pouco mais de uma semana.

Além disso, mesmo trabalhando com internet, tenho que assumir e destacar o poder que a rádio ainda possui, pelo menos nas cidades pequenas. Fizemos um trabalho em conjunto não assumido com elas nos momentos mais difíceis, tanto as AMs como as FMs que conseguiram manter a transmissão com Blumenau inteira quase às escuras. Elas noticiavam, nós publicávamos e postávamos imagens retiradas de álbuns no Orkut ou vídeos do YouTube. Somávamos quase sempre relatos de leitores vindos por e-mail.

É interessante analisar o poder de voz do cidadão na rádio, maximizado, penso eu, pelo ambiente caótico que se vivia dias atrás. A madrugada passava e os locutores não cansavam de ouvir as pessoas pelo telefone, dando a transmissão à audiência (isso lembra algo?). Era praticamente o mesmo pensamento que tínhamos ao fazer o post: ouvir a notícia de quem estava vivendo a notícia. Pensei bastante sobre isso nesses dias: produção colaborativa na internet complementando uma rádio pirata comunitária, por exemplo. Sei que já acontece (o Juliano Spyer, no Conectado, falou muito melhor que eu sobre) e projetos de sucesso existem, mas viver a experiência estando enfiado até a cabeça no projeto é uma outra coisa.

No final das contas,  entrevistas, citações, Estadões, Folhas, Portais, “inimizades” na mídia tradicional, agradecimentos e campanhas de alguns blogs depois, fica a crença (e a prova, talvez) de que a informação não necessariamente está nas redações, e sim nas pessoas, nos relatos, nas fotos desfocadas e/ou nos vídeos mal gravados. Da discussão de blogueiros x jornalistas eu quero passar longe, bem como das suposições que a mídia tradicional vai acabar. Pra mim, a conclusão é que a mídia, mais que nunca, somos nós.

Agora é hora do reconstruir a cidade e ajudar os milhares de desabrigados. Assim, o blog vai tornando-se uma ferramenta que tenta ainda mais prestar um serviço de utilidade pública. Engajar as pessoas a relatarem boas notícias dos abrigos, animá-las para ajudarem voluntariamente nas Igrejas ou a doarem o que puderem. Levar da internet para a ação. Será possível?

OBS. 1: Para quem não sabe, sou blumenauense, apesar de morar em São Paulo. Minha família não foi atingida diretamente.

OBS. 2: A Joana, colaboradora aqui do SimViral que também já morou na cidade, botou a mão no bolso e está doando R$ 100,00 em nome deste blog à Defesa Civil. A atitude faz parte de um meme que já linkei acima criado pelo Guilherme do Papo de Homem. Ela deixou livre para os leitores que escrevem em blogs que quiserem contribuir.