Numa dessas ironias da vida, chegou pra mim por e-mail esse vídeo abaixo, onde o diretor Alfonso Cuarón (“Y tu mamá también” e “Filhos da Esperança”), entre metáforas e pensamentos filosóficos sobre a vida e o comportamento humano, discorre acerca do mercado cinematográfico atual. Ele me foi enviado por um amigo que, por conta, estuda todos os detalhes do cinema e tem um apego tremendo aos vários clichês do discurso da indústria que ainda o domina. Resumindo, ele é daqueles que não baixa filmes e isso meio que explica toda a relação dele com a sétima arte.

Imagem de Amostra do You Tube

No vídeo gravado na Campus Party Iberoamericano do ano passado, em San Salvador, Cuarón surpreende e dá uma lição de maturidade. Prova que assimilou e compreendeu os novos formatos e diz que eles estão aí para serem aproveitados. Destaca ainda que isso já está acontecendo, obviamente com uma geração de diretores cada vez mais nova – vide o filme brasileiro Apenas o Fim, que lembrei enquanto ouvia o áudio da palestra. Ao mesmo tempo, não levanta bandeiras, afirmando que o melhor caminho a buscar-se no mercado não é a revolução (“guerras não levam a nada”) e sim a evolução, e que a pirataria (aquela de Camelô) tem, às vezes, um lado negativo que a maioria não conhece, mas financia. Como o patrocínio do narcotráfico.

Deixando várias coisas de lado que não caberiam neste falatório, Cuarón carimba a idéia de que único modelo possível de se fiar atualmente é o da experimentação. Levando isso em conta, existe um campo enorme a ser explorado, valendo para todas as áreas envolvidas: preço, formato, conteúdo, distribuição, divulgação. E isso vale principalmente para aqueles que estão começando os seus primeiros projetos.

No Pará, por exemplo, as novas bandas de tecnobrega encontraram a sua maneira e o seu modelo para crescer e mostrar seu trabalho, com um esquema de propaganda e distribuição que parece mambembe, mas que funciona muito bem para a realidade local. Projetos onde você propositalmente perde um livro por aí esperando que alguém o leia e passe adiante (1, 2), somados a uma disponibilização online gratuita (chutando!), poderiam servir também como catapultas no mundo físico e virtual para novos escritores que não tem espaço e dinheiro para investir mais que num cartão de visitas. Vai saber!

Assim como comecei, assim termino. No cinema, a rede social MovieMobz dá dicas do que pode vir a ser uma das milhões de respostas pra todo esse papo no escuro. Sendo simplista, muito provavelmente a engrenagem principal que possibilita o site é ter o cacife para comprar os filmes e o poder de ter as salas de cinema nos bolsos. Ou seja, numa mão a faca e na outra o queijo. Mesmo assim, a distribuidora Rain, que mantém o projeto no ar, jogou na mesa aquele elemento colaborativo primordial que dá brechas à divulgação e exibição de projetos independentes em salas importantes do Brasil. Filmes que sem um esforço de comunicação tradicional passariam em branco. Tudo isso, claro, se os diretores tiverem a capacidade de mobilizar os espectadores e se o conteúdo agradar ao público. Uma boa possibilidade para pessoas que, iguais ao meu amigo, rejeitam formatos menos ortodoxos, como as micro telas dos celulares e do YouTube. Para a distribuidora, fica a “garantia” da bilheteria – podendo até cobrar menos pelas entradas! – e a exclusão em parte daquele risco que se corre quase sempre que se exibe um filme sem aquele apelo comercial hollywoodiano e sem os milhões de publicidade.

Agora, como ficar bilhardário com entretenimento hoje em dia e encher os bolsos de verdinhas com todo essa teoria ninguém descobriu ainda. Nem eu, nem o meu amigo, nem o Alfonso Cuarón.

PS: Baixei somente o áudio do vídeo para ouvir em trânsito. Se alguém tiver interesse, gritem aí que eu tento colocar em algum lugar.

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4 respostas para De Alfonso Cuarón ao Movie Mobz

  1. andrey disse:

    Olá Ariel,

    obrigado pela indicação do link.

    Editor,
    http://estrategiaempresarial.wordpress.com/

  2. Carlos Daniel Reichel disse:

    Jovem,

    Vamos por partes.

    Sim, eu ainda não baixo filmes, mas não resisto e confesso que tenho nas últimas semanas acompanhando LOST seguindo, digamos, a famigerada maneira não ortodoxa. Teto de vidro, meu amigo, teto de vidro.

    O que me desagrada em baixar filmes é a qualidade, ou a falta dela, mas entendo os motivos que levam muitos a fazer. O valor do ingresso de cinema no Brasil é um absurdo, os filmes são financiados pelo estado, mas o “pueblo” não tem acesso. Paralelo, a geração IPOD de estudantes conectados, não raro com os bolsos recheados, tem direito a uma “meia entrada” discutível para ver filmes de arte como “A pantera cor de rosa” e “As Branquelas”, colaborando, entre outros fatores, para a prática do preço astronômico. Ou seja, o problema está na distribuição e em direitos que devem ser discutidos e que podem ajudar também a diminuir os valores. O preço do ingresso para mim não é problema, não que tenha “reaus” sobrando, mas cinema é prioridade e aprendizado, isso para um aspirante a qualquer coisa no audiovisual. Não baixo filmes porque gosto da sala escura e da tela grande, caso isso desapareça, eu troco cinema por poesia ou pintura em arroz.

    Sei que tudo que é digital pode favorecer novas e antigas propostas de entretenimento, afinal o boca a boca é que guia esse boteco movimentado que é a internet.

    Não sou inimigo do downloading, mas da pirataria. Veja bem. Penso no lado do produtor, do diretor, ator, meu interesse é saber quem paga a conta. Não de encher o rabo de dinheiro, mas de como sobreviver fazendo arte, ou enlatados, mas ainda audiovisuais. Como? A maneira que aí está já mostrou que não é frutífera, pode servir de aprendizado e vitrine, mas não funciona e isso o Cuarón sabe. O caminho é a experimentação? Concordo. Adequar o discurso? Idem.

    Nesse sentido, o da experimentação e adequação, o digital só tem a contribuir, seja na produção, através de novas câmeras (a RED é um exemplo, traz qualidade comparada a da película e tende a se tornar mais e mais acessível). Ou, principalmente, na distribuição através dos bytes, que vai, e muito, ajudar a diminuir preços e aumentar o acesso para novos e pequenos filmes, ou até mesmo para clássicos e grandes lançamentos. Iniciativas como o MovieMobz (quem te apresentou a parada? hehe) são louváveis e conectadas com a teoria da cauda, não a monga, mas a longa, que mostra que diversidade de escolhas é o caminho a ser seguido. Isso, claro, sem esquecer de gerar renda para os envolvidos e qualidade para o público.

    Dizem que toda vez que a tecnologia avança, o espírito regride. Não sou saudosista, alienado ou qualquer definição, mas me preocupo com qualidade e experiência, isso, ao menos pra mim, nenhum filme visto no PC, DVD pirata, captado com câmera de celular e divulgado nas telas do Youtube foi capaz de proporcionar.

    Não sou heavy-user de P2P, mas não preciso gostar de algo para entender a importância. A revolução poderá não ser televisionada, mas espero que distribuída em downloading´s legais.

    Veja o recado de Mclovin (Superbad) sobre pirataria. É de cortar o coração
    http://www.funnyordie.com/videos/3522ad043c/piracy-psa-with-christopher-mintzplasse-from-notms-judd-apatow-and-chrismintzplasse

    E em março estréia uma promissora série no canal Futura, falando justamente sobre esse estranho planeta dos seres audiovisuais e do futuro da bagaça toda.
    http://www.youtube.com/watch?v=j1yoCDQnwdU

    Não sou apegado aos clichês de porra nenhuma, seu maluco!

    Grande, Ariel.

    Abs
    Carlos Daniel Reichel

  3. Marcelo disse:

    O buraco é mais embaixo negao. 19 paus uma entrada de cinema nao é para qq um. Pirataria da acesso ao povo. E uma chance de terem contato com a setima arte. E nao se engane, tem muito diretor de cinema nacional querendo ser pirateado por aí.

  4. Israel Dias disse:

    Você foi indicado para receber o selo do prêmio Dardos pelo Amanaque GIGANTTE.

    Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

    Leia mais em http://www.gigantte.com.br/index.php/2009/03/premio-dardos-edicao-2009/

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